quarta-feira, 10 de abril de 2013

Top 10 livros infantis da família Cabral



Baseada no meu microconto familiar da noite passada, quando achei o "Marcelo Marmelo Martelo" perdido e vi a magia desse livro funcionar com o Felps, me deu vontade de fazer um top 10 dos livros infantis aqui de casa. 

Como toda lista, será incompleta, questionável, para alguns ridícula etc. Mas ela se baseia única e exclusivamente na satisfação do público mirim da família Cabral e no vínculo afetivo que esses livros todos provocaram.

Lá vai:




1. A Festinha - Barbara Reid

Singelo, emocionante, vibrante, o livro que fez mais sucesso aqui em casa, tanto com o Lucas quanto com o Felps. Clássico absoluto, apesar de ser de 2003. Acho que o segredo é que ele reproduz aquele estado de embaraço, confusão, excitação e pertencimento que todos nós sentimos nas festas familiares, desde que somos crianças. E mexe com um tema que me é muito caro: a construção da memória afetiva.



2. Marcelo Marmelo Martelo - Ruth Rocha


Já citado no post do Facebook. É um clássico da literatura nacional, que tem não só a história-título, mas também outras duas sensacionais: ''O Dono da Bola'' e ''Teresinha e Gabriela''. Aprovado no primeiro teste com Felps: gargalhadas de ouvir da sala diante da novilíngua do Marcelo.


3. Chapeuzinho Amarelo - Chico Buarque de Hollanda


Das ilustrações do Ziraldo à história em si, acrescentando minha performance toda especial no "Eu sou um lobooo", é um sucesso absoluto aqui em casa. Um jeito inteligente e divertido de recontar a manjada história da Chapeuzinho Vermelho.


4. Como Contar Crocodilos - Margaret Mayo


As histórias desse livro têm em comum o fato de terem bichos como personagens e sempre oferecerem pontos de vista inusitados de situações igualmente incomuns. O resultado é que as crianças ficam fascinadas e pedem para ouvir de novo. E olha que os contos não são fáceis, os personagens não são todos bonzinhos, mas são todos cativantes.


5. Lúcia Já-Vou-Indo - Maria Heloisa Penteado


Esse livro fez sucesso com a minha irmã, que teve de lê-lo na primeira série. Com o Lucas pequeno, tive um sobressalto quando dei de cara com ele, em edição idêntica. É um livro sobre aceitar as diferenças e anti-bullying muito antes de se falar em bullying. E a musiquinha "Lúcia ja vou indo vinha vindo vinha vindo" é um hit já em terceira geração na minha família, by Roberta Alvares.


6. O Gatola da Cartola - Dr. Seuss

Na verdade o ideal seria colocar todos os livros do Dr. Seuss nessa lista. Esses livros foram um divisor de águas na infância do Lucas: vieram numa fase em que ele começava a ler, mas ainda gostava de ouvir histórias. Lemos todos eles juntos, e foram um achado para mim, que não conhecia esse clássico da literatura infantil. A tradução da Mônica Rodrigues é um primor.




7. Um Garoto Chamado Rorbeto - Gabriel O Pensador

Muita gente talvez nem saiba que o Gabriel O Pensador é autor de um livro infantil. Na verdade, o livro é bem melhor que qualquer música do cara, hehehe. Uma história inusitada, bem costurada, que mistura a relação de pai e filho, a aceitação das diferenças e a importância da leitura. Não vou contar o principal, para não estragar a surpresa de quem quiser contar para os filhos. 



8. Como Pegar uma Estrela - Oliver Jeffers

É o único desta lista 100% Felps. O Lucas não passou pela aventura do garotinho obcecado em ter uma estrela só para ele, e as fofas artimanhas que ele cria para pegar uma. Divertido, emocionante, com lindas ilustrações. Tenho de agradecer à Mariana Miguel pelo presente.


9. O Ursinho Apavorado - Keith Faulkner

Campeão de gargalhadas no quarto do Lucas, esse não funcionou com o caçula: o Felipe pegou bode do livro. Morre de medo dos barulhos terríveis, fruto da imaginação do ursinho. O objetivo era justamente tirar o medo dos meninos de dormirem sozinhos no quarto deles. Com o Lucas funcionou. Com o Felps, #fail. Ainda assim entra na lista pela criatividade da história e o primor das dobraduras.



10. Raposa - Margaret Wild

Na verdade, trata-se de um livro de terror infantil. Lucas, que está bisbilhotando aqui do lado, foi contra a inclusão na lista. "Até hoje tenho pesadelos com esse livro. Até a capa já dá medo''. E ele está certo. O livro é inquietante, tenso. Justamente por isso, totalmente diferente da oferta existente em literatura infantil. O resultado: Lucas lembra dele até hoje. Ainda não tive coragem de testá-lo com o Felps.



Menção honrosa: Da Pequena Toupeira que Queria Saber quem Tinha Feito Cocô na Cabeça Dela - Werner Holzwarth e Wolf Erlbruch

Um livro escatológico, mas sucesso total com meus dois filhos. No Maria Montessori, escola onde o Lucas fez a educação infantil, chegou a haver uma assembleia de mães que queriam reclamar do livro, pois as crianças estavam no Jardim 1 (4 anos) e ele foi incluído na biblioteca circulante. Mais um grande acerto da escola. Um jeito bem-humorado de desmistificar um assunto, mostrar a diferença entre os animais e mostrar, desde cedo, que se você cagar na cabeça de alguém, vai ter troco.  

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Para Felps, em seu quarto aniversário

São Paulo, 12 de setembro de 2012.



Felipe, Felps, Mindu...

Você ainda não sabe ler, então, provavelmente, só travará contato com este texto daqui a alguns anos, quando sabe-se lá se esse blog ainda estará ativo ou se estará soterrado em camadas geológicas da internet.

Mas hoje em dia, filho, os textos costumam ser escritos assim, sem tinta e papel. E quando você for maior talvez os meios sejam ainda mais virtuais...

O importante é que hoje, dia do seu aniversário de 4 anos, me deu vontade de te escrever. A inspiração veio do texto que uma amiga escreveu para a filhinha dela, ainda bebezinha, contando tudo que passou a sentir e aprendeu depois que ela nasceu.

Mas, na verdade, é um desejo antigo. Tem a ver com a própria razão de ser desse blog pouco atualizado e com a minha antiga obsessão por diários, por trilhas sonoras, por fotos, enfim, por registros dessa vida que passa tão voando que a gente às vezes esquece de parar para refletir.
E passou tão rápido... Embora, por outro lado, tenha levado tanto tempo...

Você nasceu em 12 de setembro de 2008, depois de três tentativas que não deram certo que eu e o papai fizemos de ter o segundo filho. O Lucão tinha 8 anos, já, e toda a gravidez foi muito tranquila, mas sempre cercada por aquele medinho de as coisas darem errado de novo.

Mas deu tudo certo!!! Numa manhã seca de Brasília, você chegou meio carequinha, mais clarinho que o Lux, gordinho e redondinho e mudou a vida da nossa família pra sempre, para melhor.

O Lucas ganhou o irmão que tanto pedia, e eu e o papai ganhamos um bebê loiro, veja só! Um bebê tranquilo, fofo, desde sempre meigo, que nos primeiros meses gostava de dormir nos meus braços enquanto eu dançava no meio da sala no nosso apartamento 101, no Bloco F da SQSW 103, Sudoeste, em Brasília.

Tenho saudades das nossas tardes de ócio e TV quando eu estava de licença-maternidade, em que nos deitávamos na minha cama e brincávamos sem hora para acabar. Dos nossos passeios de carrinho pela quadra, que terminavam com café e bolinho de tapioca na Monjolo _, e, claro, com as pessoas debruçadas sobre seu carrinho e babando de tanto que você era fofo.

Passamos uns perrengues, como quando você rolou da cama e quebrou o bracinho, ainda aos seis meses. Ou quando, meses depois, foi a vez da perna. De cara já dava para sacar: esse seria um bebê mais agitado que o Lucático.

E assim tem sido. Voluntarioso, às vezes mandão, às vezes manhoso. Mas sempre carinhoso, alegre, esperto, vivaz, feliz. Uma criança sorridente, feliz e empolgada com as coisas da vida.

Aos 4, já conhece Paris e Nova York. Muito chique, você. Também gosta de "Big Time Rush", "Brilhante Vitória" e "Mad", assuntos que devem fazer seus coleguinhas de classe ''boiar'', já que não são para a sua idade. Às vezes solta um palavrão aqui, um ''saco'' ali. Coisas de menino temporão com irmão (e ídolo) mais velho.

E como come!!! Meu gordinho não dispensa pastel (''de ketchup''), batata frita, pizza (de linguiça, sempre), macarrão (com queijo ''enrolado''), carninha, sorvete, tomate, chocolate, guaraná... Não gosta muito de fruta e enrola com os legumes, mas traça qualquer trasheira.

Segundo filho é isso aí. Se o Lucas teve de enfrentar a rigidez de dormir sempre no quarto dele, comer legumes e frutas regularmente e só experimentou brigadeiro na festa de um ano, você vira e mexe dorme "numa cama diferente'', viajou para a praia aos 3 meses e encarou papinha Nestlé na mais tenra primeira infância.

Espero que a gente não esteja errando, filhote. E pode ter certeza: vamos pegar pesado com você quando precisar, porque educar às vezes é ser chato, e fazer coisas que vão deixar você ''muito triste'', como você fala com aquele beicinho que deixa todo mundo apaixonado.

Meu loirinho manhoso é esperto. Sabe contar até perder a conta, conhece todas as letras, sabe os dias da semana, canta em inglês (I'm sexy ananoi nanoi) e mexe no iPad melhor que eu. Gosta de historinhas, de que a gente ''fique até o soninho'' e odeia escovar os dentes (e tem bafinho às vezes, tenho de confessar).

Já quebrou os dois dentes da frente, além da perna e do braço e das duas cirurgias. Ufa, você é de tirar o fôlego, Felps!

Espero que quando você souber ler e se um dia tiver acesso a esse texto você seja ainda mais feliz do que hoje, mais esperto, talvez um pouco menos precoce (hehe), mais fofo e mais lindo. Será que isso é possível?

Obrigada por ter vindo iluminar a nossa casa com seus cabelos loiros. Obrigada pelo seu sorriso, pelos seus olhinhos espertos, pelo seu jeitinho todo peculiar de correr (e de cair, e de derrubar, e de chorar, e de comer meleca de nariz, e de falar ''me dá um ablaço'' ou ''eu pleciso de um colinho''; ok, o ''l'' do Cebolinha você já abandonou, mas era tão fofo que a gente ainda te imita assim).

Obrigada por tornar a minha vida, a do papai e a do Lucas todos os dias mais feliz pelo fato de você ter vindo se juntar à nossa família. Ser sua mãe e mãe do Lucas é a melhor coisa da minha vida, todos os dias. Vivo por vocês, meus amores.

Feliz aniversário, Mindu. Hoje à noite vai ter o bolo que você exigiu, pode deixar.

Te amo!
Mamãe



 


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Às irmãs Rodrigues, com amor, muito obrigada


"Penha,
Já que só faltam 3 dias pra você ir embora, eu queria dizer que você já se tornou parte da nossa família e se quisesse ficar, nós deixaríamos com prazer, mas você vai prestar biologia, seu grande sonho, então eu lhe desejo boa sorte e que você se torne uma ótima bióloga. Eu sei que vamos continuar nos vendo, mas nem tanto quanto agora. Ninguém nunca vai te substituir, você é muito legal.
Com amor,
Lucas
17/11/2010''

Esta carta singela, mas pungente, foi escrita na noite de hoje, na solidão do seu quarto, pelo Lucas, do alto de seus 10 anos. Quem conhece o meu Coquinho sabe que é uma criança tão amorosa quanto reservada, tão feliz quanto lacônica, às vezes.

Perpetrar um texto expondo tanto de seus sentimentos deve ter sido penoso, sofrido para ele.
Penha, para quem não conhece, é a pessoa que cuida do Lucas desde que ele tinha 2 anos, e do Felps desde que ele nasceu. É uma das três irmãs Rodrigues, três anjos que apareceram na nossa família ainda em 2000 e que, ele tem razão, jamais serão substituídas.

A primeira a chegar foi a Neide, ainda quando esse menino genial e generoso tinha menos de 1 mês. Era uma menina magrinha, tímida, séria, de 20 anos. Me disse que tinha chegado havia pouco tempo de Serra Talhada, em Pernambuco. Já tinha cuidado de crianças, trabalhado em casa de família. Apesar de ter trabalhado desde muito nova, tinha terminado o segundo grau e falava um português perfeito. Foi a primeira candidata a babá que eu entrevistei. E ficou.
A "Nena", como o Lucas passou a chamá-la quando começou a balbuciar, foi um achado: inteligente, brincalhona, carinhosa, de extrema confiança, logo vi que tinha um futuro grande pela frente.

Logo também conheci sua família querida. A Penha foi a segunda a chegar. Era uma menina. Nessa condição, veio cobrir as férias da irmã, pouco menos de 2 anos depois. Era a Copa de 2002. Ela e o Lucas se mandaram para ver a Seleção pentacampeã desfilar no Eixão. Era apenas a primeira de muitas aventuras que viveriam juntos.
Penha ficou de vez, quando a Nena voltou. As duas em casa eram nossa garantia, nosso porto seguro. Inteligentes, ambas ingresssaram em faculdades. Neide se formou em secretariado. E a Penha, já disse o Lucas, hoje é bióloga.
Com a ''pioneira'' das irmãs Rodrigues formada, indo seguir seu caminho, chegou à casa da família Cabral a terceira dessas grandes mulheres. A Dinha entrou em casa em 2006, e ela e a Penha tocaram o barco juntas até este ano. A terceira irmã Rodrigues é uma fortaleza, uma rocha que dá um duro danado para criar a Milena, uma menina encantadora, da nova geração dessa família maravilhosa.
Nem a mudança para SP teve o condão de nos separar de cara. Insistimos, persistimos, na certeza de que seria difícil para os dois lados conseguir uma comunhão tão perfeita. Dinha veio primeiro, Penha veio depois, há nove meses.
Mas a vida tem de seguir o seu curso, e aquela menina que conheci com menos de 20 anos, que em casa vivei grandes alegrias, outras tantas barras, vai prestar um Mestrado em Biologia na UnB e conseguiu, por seus méritos, uma bolsa-trabalho na Embrapa.

Não cabe a mim ter nenhum tipo de sentimento senão a nobreza desse menino de 10 anos: desprendimento, torcida para que tudo de melhor aconteça, e a certeza de que não haverá substituição possível para o papel que essas três guerreiras desempenharam na nossa vida.

Você confiar seus filhos a alguém é algo que enche de pavor e insegurança. Quando se está longe da família, trabalhando feito loucos, é quase uma roleta-russa. Tirando um ou outro desentendimento comum numa relação tão próxima e tão longa, tenho de dizer que tirei a sorte grande.

Neide, Penha e Dinha não ajudaram só a cortar a unha, a limpar a orelha, a fazer o dever, a trocar fraldas, a dar comida, a colocar na cama o Lucas e o Felipe. Agora vejo com clareza que elas ajudaram a mim e ao Cabral a forjar nesse menino grande, surpreendente, um caráter sólido, uma nobreza de sentimentos da qual me orgulho e à qual me curvo, emocionada até a medula.

Sei que esse menino, capaz de devotar palavras tão doces e amorosas a quem dedicou a ele tanto carinho, nunca será capaz de um gesto de preconceito, de violência, de arrogância, de intolerância sexual, racial ou social. Nunca tratará quem quer que seja como seu empregado, mas sempre como seu igual. Nunca relegará os amores à condição de coisas desimportantes, nunca abandonará as amizades sinceras.

Felps, meu ''bebê'', esse garotinho encantador, engraçado, feliz, talvez olhe para as fotos daqui a uns anos e não se lembre da Penha nem da "Naná", como ele chama a Dinha. Se isso acontecer, vou me sentir em dívida com ele. Se já não terá a infância cercada de segurança de Brasília, também não terá o porto seguro das irmãs Rodrigues por tanto tempo quanto o irmão.

Por outro lado, como bem lembrou o Cabral, crescerá desde mais novo perto da família _dos avós, dos tios, dos primos_, e isso com certeza dará a ele outras referências, tão sólidas quanto as do Lucas. Ele já é um menino tão especial quanto o irmão, em sua meiguice dengosa, em seus enroscos pedindo ''colinho'', ''leitinho'' e ''carinho''.

Agora meus dois tesouros terão de se acostumar a outra pessoa. A nós só cabe zelar para que seja alguém capaz de cuidar muito bem deles. Mas certas coisas acontecem só uma vez na vida. Não haverá outras irmãs Rodrigues.

Obrigada, meninas, por ajudarem a criar esses meninos lindos. Obrigada por ajudarem a enraizar no Lucas esse caráter que me enche de honra por ser mãe dele. E obrigada por mimar meu bebezinho ainda tão novinho em tempos em que eu mesma às vezes estava trabalhando demais para poder fazê-lo.

Sei que a gente fez o que pôde para ajudar nesse crescimento de vocês, mas não foi nada além do que vocês mereceram. Sejam felizes, vocês vão muito longe com certeza.

E Penha, essa é especial para você: obrigada por ser a melhor amiga do meu Luquinhas. Nunca nada vai pagar isso.

Com amor,
Vera, Cabral, Lucas e Felps

sábado, 3 de julho de 2010

Toy Story e as dores do crescimento


"Mãe, algumas coisas que você vai precisar para ver esse filme: um lenço, um balde, um calmante e um ombro amigo para chorar". Assim, sem tirar nem pôr, Lucas, meu filhote genial de 9 aninhos, me ligou tão logo saiu da sala do cinema depois de assistir "Toy Story 3''.
Ele sabia que, lá em casa, era eu a mais ansiosa pelo fecho da trilogia da Pixar, e deve ter intuído, conhecendo a mãe que tem, que eu daria vexame no cinema diante do último capítulo da saga de Woody, Buzz e companhia.
Bingo! Dali a dois dias, lá estava eu precisando de um lenço, um balde, um calmante, mas tendo um ombro pra chorar: o dele, aquela criança que, a exemplo do Andy do filme, está crescendo e deixando seus brinquedos para trás.
E foi nesse ponto que Toy Story 3 calou fundo no meu coração: se os dois filmes anteriores eram sobre a lealdade e a fidelidade, esse é sobre os ritos de passagem da vida, algo que para mim nunca foi muito tranquilo.
O crescimento de Andy é acompanhado necessariamente pela obsolescência daqueles brinquedos que o acompanharam até ali. Ficar velho, perder a utilidade, ser descartado. São fantasmas que sempre foram muito presentes para mim, uma agnóstica convicta que acha que não haverá nada além de decomposição orgânica depois da morte. E para quem, por isso, a morte é um tabu.
Junte-se a isso o vislumbre de que meus filhos, o Lucas mais que o Felps, estão crescendo e se tornando independentes de mim, e está pronto o coquetel lacrimoso.
Para alguém que, como eu, gosta da constância, do amor que dura, de cultivar as amizades antigas e de guardar tranqueiras, o dilema de Andy _se desfazer ou não dos seus ''amigos'' da vida toda_ calou fundo.
E no Lucas também. Logo depois do filme, ele passou a brincar novamente com seus brinquedos que pegavam pó na estante há meses. Foi lindo vê-lo dar uma nova chance a bonecos, carrinhos e bolas que, a exemplo dos personagens do filme, têm uma história com ele e com a nossa família.
E, afinal, qual a surpresa? Ele tem NOVE anos. Não deveria ser natural que uma criança nessa idade gastasse mais tempo em batalhas imaginárias entre aliens do Ben 10 e heróis da Marvel? Ou montando seus Legos Star Wars antes tão cobiçados?
Acontece que a infância, como tudo, está sendo acelerada além da conta. E Toy Story é, acima de tudo, um libelo a favor da brincadeira, da fantasia, de ser criança. E por isso é a mais bela e a mais atemporal fábula produzida pelo cinema desde... Wall Disney?
Por isso, também, os óculos 3D são plenamente dispensáveis neste filme. Toy Story não vale pelos efeitos especiais, mas pela história. Não impressiona pela tecnologia, mas pelo que tem de mais ancestral e humano: a história de amizades que resistem à inexorável passagem do tempo e que fincam raízes na memória, esse arquivo que, com o passar dos anos, vai guardando não só nossas alegrias, mas nossas nostalgias, nossos medos e nossas angústias.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Brasília me deu régua e compasso


Várias são as abordagens _jornalísticas, sociológicas, arquitetônicas, históricas_ possíveis para se falar dos 50 anos de Brasília. Várias também são as mazelas que cercam a já não tão nova capital federal em seu cinquentenário. Longe de mim relevar todos esses aspectos ou deixar de reconhecer os problemas, graves e aparentemente insolúveis.

Mas o que vem me ocupando a cabeça e o coração desde ontem, quando comecei a pensar na efeméride, não diz respeito a nenhuma dessas dimensões mais gerais. A nostalgia que me envolve tem a ver com todos os aspectos da cidade propriamente dita, a Brasília em que pessoas comuns moram, se divertem, criam seus filhos, se envolvem em brigas de trânsito, vão à padaria etc. Uma cidade que incrivelmente escapa a todas as análises sociológicas, históricas e antropológicas, como se não existisse.

Cheguei a Brasília pela primeira vez em 24 de outubro de 1999, de mudança, sem o Cabral, que não tinha sido transferido, escoltada pela minha mãe e chorando pra caramba. A paisagem que primeiro se vê da cidade não revela os monumentos de Niemeyer, mas sim uma sequência de quadras residenciais, do fim da Asa Sul, que para mim lembrou um campus universitário.

Só depois de um longo trajeto você começa a reconhecer os prédios-símbolo da cidade: primeiro o Banco Central, com seu aspecto "cubo mágico", depois a Esplanada, com o Congresso e a Praça dos Três Poderes ao fundo, a bandeira tremulando eternamente.

É difícil "pegar a manha" do trânsito brasiliense. Comprei um carro logo que cheguei e não foram poucas as vezes em que me perdi no autorama, como a gente chama a sucessão de eixos, tesourinhas, alças de acesso e vias com nomes em siglas.

Mas o fato é que logo Brasília começou a me revelar o seu melhor. Fui acolhida por um grupo de jornalistas fantástico, todos eles exilados voluntários como eu. O "Pavilhão 9", casa que reunia muitos desses amigos, era um ponto de encontro desse pessoal que me recebeu tão bem que me fez sentir menos saudades dos amigos da vida toda que tinham ficado em São Paulo.

Ao longo dos anos, esse grupo de jornalistas amigos foi se transformando. Uns foram embora, outros chegaram, num movimento típico da cidade. A Brasília dos jornalistas é uma terra de estrangeiros, em que a sua naturalidade (no sentido de ser natural de, atenção) é assunto de boteco, em que sotaques viram piada em churrascos nas lajes e em que o fato de todo mundo ser de fora faz com que se crie um círculo de solidariedade, amizades e lealdade que _me desculpem de novo os céticos de Brasília_ não existe fora dali. O Pavilhão 9 deu lugar à Febem, que foi substituída por Melrose, mas a cada temporada, de 1999 a 2009, não foram poucas as histórias, os dramas e as descobertas de uma cidade em que os amigos são também a sua família.

Os mesões, as baladas, as lajes, os jogos de Master, tudo isso forjou em mim a certeza de que os amigos de Brasília serão amigos para sempre, por mais que o tempo passe e as pessoas se dispersem nessa diáspora candanga. Não vai dar pra citar todo mundo que passou e fincou estacas na minha vida ao longo desses 10 anos, mas dá para dizer que a maioria dos meus melhores amigos hoje eu conheci ou reencontrei em Brasília, e isso não é pouco nem é trivial.

Lucas

Menos de um mês depois da chegada a Brasília, a surpresa: eu estava grávida numa cidade estranha, longe da minha família e tendo acabado de assumir um cargo de chefia. Mas nem o susto afastou a alegria imensa com a notícia. O Cabral, que até então não tinha data para ser transferido, acabou indo para Brasília numa vaga de economia, área estranha para ele, e nos mudamos para o nosso lindo apartamento na 211 Sul, onde o Lucas chegou em 26 de julho de 2000.

Meu filho candango, leonino, moreninho, gorducho e bochechudo foi o primeiro presente que Brasília me deu. Toda a história que começou a ser escrita a partir da chegada do Lucas, o verdadeiro marco zero da nossa vida brasiliense (o período anterior foi um grande ensaio geral) é uma história de amor, de uma vida tranquila, cercada de amigos, de paz, de segurança e emoldurada por uma cidade que pode ter todas as mazelas que tem, mas que é um lugar fantástico para se ver uma criança crescer e ser feliz.

Quando o Luquinhas fez 2 anos, decidimos matriculá-lo na escola. Depois de várias visitas a colégios, optamos pelo Maria Montessori, uma inacreditável mistura de castelo de contos de fadas lúdico e jardim zoológico, com trenzinho que percorria toda a escola, bichos andando soltos por lá e outros em viveiros, classes que pareciam a casinha dos 7 anões. Não bastassem a linha pedagógica instigante e focada no bem-estar da criança e essa imensa área livre, o Montessori se mostrou, logo de cara, uma casa de novos e grandes amigos para nós e para o Lucas. Durante 8 anos meu filho e nós estabelecemos laços inquebráveis com famílias totalmente diferentes da nossa, mas que tinham e têm em comum a disposição de participar ativamente da vida dos filhos, proporcionar a eles contato com os amigos para além dos muros da escola e aprofundar uma amizade a despeito de barreiras profissionais, religiosas, ideológicas e sociais que eventualmente nos separassem.

Viagens para Santa Catarina, São Paulo, Bahia, Alagoas, Estados Unidos (perdemos essa...), passeios semanais, intercâmbio de crianças pelas casas, complôs na escola para a definição das classes, consultas médicas e odontológicas, negócios comerciais... os "montessorianos" viraram um grupo sólido, que nem a separação de cidades e nem a já esperada mudança de escola, em 2011, vai quebrar.

Guilherme, Gabriela, Henrique, Matheus, Felipe, Davi, Natan, Guilherme Braz, Pedro Paulo, Henrique Casado, Hélio, Maria Luiza, Lucas Kalil, Pedro Jorge, Vitor... cada uma dessas crianças únicas, especiais, amigos-irmãos do meu Lucas e seus pais e irmãos fantásticos, companheiros, adoráveis ficarão para sempre na vida da família Cabral.

É de pessoas assim, de dentistas, médicos, fisioterapeutas, procuradores, funcionários públicos, advogados, economistas, veterinários, comerciantes que Brasília é feita. Nós jornalistas e os políticos é que talvez tornemos a cidade mais esquisita, ao achar que o enredo que se constrói em seus gabinetes, nos cafezinhos do Congresso e nas solenidades é o único enredo de uma cidade que pode ter nascido planejada, mas que hoje é imprevisível e falível como todas as demais.

Felipe

E foi nessa situação de conforto extremo, de pertencimento à cidade, morando no Sudoeste _sem dúvida e novamente contra a corrente o nosso bairro em Brasília_ e com uma vida já muito gostosa e feliz que decidimos que, depois de 3 perdas desde 2001, tentaríamos de novo dar um irmão para o Lucas. O Felipe nasceu em 12 de setembro de 2008 para completar a fotografia. Tinha um espaço reservado para ele que insistiu em ficar vago por 8 longos anos, mas que, a partir daquele dia, estava preenchido.

É com um pouco de aperto no coração que eu me pego pensando que o meu caçulinha, loirinho, barrigudo não vai ter essa infância de conto de fadas, cercada de segurança, de acolhimento e de amigos com os quais se pode contar sempre. Não vai vestir o uniforme do Montessori nem brincar no Foguetinho do Parque da Cidade. Mas vai ter outros amigos, momentos igualmente felizes, o mesmo amor e a mesma dedicação, mas será uma experiência em tudo diferente. Daqui a 8 anos será possível comparar e ver as diferenças.

Em outubro de 2009, exatos dez anos depois da chegada, a família Magalhães-Cabral começou a fazer o caminho de volta para a casa, novamente provocado por uma proposta profissional irrecusável. Foi um choque para o Lucas, e a vida do Felipe, embora ele nunca vá se lembrar exatamente, também foi virada do avesso. Estamos de volta a uma São Paulo ainda mais caótica, excludente, hostil e feia do que a que eu deixei há dez anos.

Cidade por cidade, que me desculpem os críticos de Brasília, mas não existe comparação entre Brasília e São Paulo para se viver, criar os filhos e mesmo se divertir. Porque São Paulo pode ser cosmopolita, uma metrólope cultural, berço da diversidade de pensamento, de tendências e de tribos, ter os melhores restaurantes e as baladas mais incríveis, mas é muito mais difícil você conseguir tempo e organizar uma logística para aproveitar tudo isso quando se tem 2 filhos e um cargo de chefia para administrar.

É nesse pêndulo que nos encontramos agora, começando a gostar de aspectos da nova vida paulistana, ainda um pouco presos aos últimos dez anos, e, no meu caso, com o trabalho em plena ebulição, uma efervescência que me faz ter a certeza de que a escolha feita era a única possível e também era a certa, a melhor.

Nos 50 anos de Brasília, presto um tributo incondicional, parcial, totalmente crivado pela emoção, possivelmente cheio de clichês e de uma visão pra lá de ingênua a uma cidade à qual cheguei uma jornalista jovem, em início/meio de carreira, com certa experiência, mas longe de ser uma repórter de verdade, e da qual saí uma mulher melhor e mais generosa, uma repórter experiente, mãe das duas crianças mais lindas que já nasceram e com um casamento que passou por várias provações _inclusive a atual, da ponte aérea_ mas se revelou forte o suficiente para encarar todas elas e sair sempre melhor, mais cheio de paixão, de amor e de conquistas, 15 anos depois.

Obrigada, Brasília. Não há dúvida de que, em dez anos, você me deu régua e compasso.

sábado, 3 de abril de 2010

Um abraço que vale por tudo


Porque mesmo quando a vida quebra a nossa perna, tem uma pessoa que está ali do lado pra nos amparar.
Posted by Picasa

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Brotherhood



Outro dia, um fim de semana, eu estava em plena TPM e o Felps, meio enjoadinho, meio gripado, abria o berreiro a cada vez que eu me afastava dele poucos milímetros. Típica manha.
Sem paciência, estrilei:
_Ahhhh, não, Felipe, pode parar com essa choradeira!
Meu tom de voz é sabidamente alto, e saiu alguns decibeis acima.
Qual não é minha surpresa quando, imediatamente, o Lucas, que parecia absorto em algum desenho, pula à frente do irmão e vem, todo assertivo:
_Mãe, não grita com ele! Sério, mãe, não vai adiantar nada você gritar com ele, e ele ainda vai ficar mais assustado.
Eu parei imediatamente assaltada por duas sensações. A primeira, racional: ele estava absolutamente certa e eu fiquei orgulhosa da argumentação firme, segura, fundamentada.
A segunda foi puramente emocional: eu fiquei tocada pelo instinto de proteção genuíno esboçado por aquele menino, do alto dos seus 8 anos, até ontem ele mesmo o bebê da casa, desprovido de qualquer ciúme, imbuído de um amor que a gente não tem como saber de onde brota.
E foi aí, nesse dia, diante dessa cena que eu queria perpetuar na retina, no coração, que me deu finalmente vontade de ter um blog. Porque essas coisas passam, infelizmente. Porque não temos uma câmera de video à mão para registrar os momentos realmente preciosos da vida.

Ter ou não ter um blog

Se eu tivesse de fazer uma disposição de motivos sobre a necessidade ou não de ter um blog há alguns meses, diria taxativamente que nunca teria um. Por várias razões. Uma delas, porque já estou exposta demais na chamada web 2.0, dando pinta em orkut, facebook, twitter, last fm, myspace e outras bandas.
Segundo porque acho que, ao ter um blog, a pessoa se sente automaticamente impelida a achar que tem opinião formada sobre tudo. O que dá preguiça.
Terceiro, porque falta tempo para gerenciar marido, dois filhos, trabalho, toda essa intensa vida virtual, as leituras, os mesões etc.
Mas a memória afetiva dos velhos diários, até hoje guardados, e os pensamentos e cenas que eu gostaria de registrar de alguma forma foram mais fortes e me trouxeram até aqui.
Em poucos e simples passos _o mais complexo e angustiante deles, sem dúvida, o de batizar a criatura_, eis-me aqui na blogosfera.
Por ora, esse endereço será guardado como um segredo, como bem recomendou o Built to Spill. Mas à medida que os pensamentos ganharem pernas, ou asas, ele sairá do armário.
E por que, afinal, Vestígios de Vera?
Porque tenho desde sempre uma atração inexplicável pelas aliterações, porque queria algo que soasse assim, meio diáfano, meio impressionista, porque sou egocêntrica e tenho a mania de colocar meu nome em tudo desde criança, porque vestígios são imprecisos, porque esses vestígios podem ser desde cenas familiares até "papos-cabeça", passando por música, cinema, literatura, sexo e o que mais vier.
Porque a gente sempre tem a pretensão de que vai deixar marcas em algum lugar. Ainda que sejam meros vestígios.
Welcome aboard!